Morreu! Quando, que horas, de que? Causas naturais, acidente, doença grave, prematuramente. Morte anunciada, esperada... Ninguém escapa dela. Na minha cidade existe um agente funerário que anuncia o fato na rua, igual o vendedor de pamonhas. O texto nunca muda, talvez para confirmar que dentro do caixão todos são iguais: Atenção para nota de falecimento, faleceu aos tantos anos de idade o senhor: José dos Anzóis, pai do Pereba, irmão do Zé Ruela, primo do Cabeção, a família enlutada convida parentes e amigos a passar a noite e acompanhar o féretro que saíra do velório municipal às 8 horas de amanhã.
Falar de morte, uma coisa tão natural! Quando se descobre que morrerá em curto espaço de tempo, ai meu amigo! O bicho pega. Fazer o que? Pensar nela ou na vida. Existe uma diferença quando não se pode escapar do fim ou quando se caminha para ele através do suicídio. Também vai depender dos motivos. Coragem, ousadia falar da morte, eu tenho receio. Outro dia concordei com um monte de gente, escrever é a solução, Antonio Cícero dizia que toda fala – inclusive as que traduzem o pensamento – parecem deficientes, é através da escrita que adquirimos posse real do nosso próprio pensamento. Antes de falar asneira deveríamos escrever detalhadamente num papel, reler com atenção antes de emitir qualquer impressão. Os relacionamentos humanos melhorariam muito.
Tem um outro monte de gente que afirma ou deixa claro que: ...se escreve melhor quando se está na pior (solidão, dificuldades, dores, de cotovelo inclusive, paixão, chifre, à beira da morte). Rainer Maria Hilke considera a solidão uma via necessária para o fortalecimento das possibilidades de engrandecimento e harmonização do íntimo. Eu comecei a escrever este texto, às 2 da madrugada (da vontade morrer quando perco o sono).
Mas voltando ao assunto. Difícil pensar na morte, quase não pensamos, outro dia lendo um comentário de João Pereira Coutinho, sobre o livro de Christopher Hitchens, intitulado “Ultimas Palavras” (Globo Livros), obra esta que aborda o assunto sob a ótica de um “condenado” pelo câncer, pensei no assunto e antes de falar bobagem, resolvi escrever. Iniciando por admitir o quanto somos frágeis e muitas vezes insensíveis com estes assuntos, imaginei o quanto deve doer em um doente terminal um olhar de compaixão principalmente de quem se ama. A sensibilidade aflorada pela eminência do adeus capta os sentimentos mais secretos. E o que dizer nestas horas? As pessoas têm muitas vidas, eu tenho várias: a minha, a da minha companheira, da minha filha, da minha neta, dos meus pais, irmãos, amigos, dos animaizinhos que adoro... São muitas vidas! Ai bate uma dor daquelas que me rouba tudo quando penso que ela pode escolher qualquer uma destas, você entrega tudo em troca de uma destas vidas.
Sou da turma que aprendeu a dar valor à vida, não dos que dizem por dizer, afastamos constantemente maus pensamentos preparamos a cada passo a construção de ambientes harmônicos e prazerosos, seja em casa, no trabalho, em qualquer lugar que se esteja. Não aceitamos gestos, pensamentos, maledicências destrutivas. Falar da morte é muito difícil pra nós. Coutinho relata que Hitchens, considera que a morte não passa de um fato sem grandeza, tudo o que restará é apenas o exemplo. Partindo desta premissa quem teve uma vida de realizações ficará para todo o sempre. Ao contrário, encerra-se o caso.
Um amigo meu conta a história de um outro, que vivia na austeridade, exemplo de moral e bons costumes, rígido com a mulher e as filhas que deviam sempre se recatar, baixar a cabeça para os olhares maliciosos e para as tentações do mundo. No dia do enterro do tal, enquanto se velava o corpo com muito comedimento e pouca expressão de sentimentos, aparece a outra, mais jovem, exótica, em prantos convulsivos, e, de alto e bom tom dizendo: ...o que vai ser da minha vida? A mulher, as filhas e os parentes, foram saindo aos poucos, de fininho, e se não fosse os funcionários do serviço funerário e a amante, não restaria um vivente para fazer as honras. Que exemplo!
A morte é o fim mesmo. E acreditem, eu já me senti morto e vivo ao mesmo tempo, vou explicar, uma senhora, daquelas que não gostam de ser contrariadas, disse que eu morri para ela, e na sua presença eu me sinto assim.
A vida vale a pena, mesmo que o pão seja caro e a liberdade pequena.
Crônica de Jordemo Zaneli Junior, publicada no Jornal Folha da Região de 27 de novembro de 2012.
Foto do autor: Cemitério de Manchester-VT (EUA).

Nossa, Jordemo! Li a sua crônica, ontem, aturdida. Nada é mais triste do que a verdade:
ResponderExcluir"morremos quando deixamos de viver no coração do outro".
Não matei ninguém ainda!
Parabéns! Você é ótimo no que escreve.
Olá Rita, obrigado, você também é ótima no que escreve grande abraço.
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